Quando o teto caiu


Eu raramente fico de mau humor. Raramente fico brava com algo ou fico frustrada. Não guardo mágoas nem de situações e nem de pessoas.

Eu tenho amigos que ficam irritados comigo por eu não me irritar com (quase) nada.

Algumas pessoas assumem que eu tenho uma “calma” que vem da arte marcial que pratico, mas não é bem assim. Ela não me traz necessariamente calma, mas me ensina a analisar estrategicamente o contexto de uma situação antes de gastar energia à toa. Um dia escrevo sobre isso.

Essa “calma”, na verdade, vem da ideia de: se não aconteceu ainda, não tem por que sofrer, se já aconteceu a gente se concentra em agir no que é possível ao invés de sofrer.

Claro que essa mudança de pensamento não acontece da noite para o dia e já faz alguns anos que exercito isso, graças a um episódio que poderia ter sido trágico, mas não foi.

Na época em que eu fazia faculdade de História (leia-se: muitos anos atrás), eu passava o dia na casa da minha vó.

Naquela época, as paredes da casa dela estavam aparentando algumas rachaduras em vários cômodos e na cozinha elas quase atravessavam o teto ao meio.

Num belo dia, cheguei de manhã com minha mãe e, antes de sair para trabalhar, ela começou a reclamar do teto, dizendo que logo ia cair, que estava feio, blá blá blá. Quase 15 minutos de pura reclamação, como só minha mãe sabe fazer. Acabando o discurso, ela foi trabalhar.

Lembro da minha vó olhar pra mim com cara de deboche e dizer “sua mãe só reclama, como se fosse resolver alguma coisa”. Então ela foi pra cozinha fazer o almoço e eu fiquei na sala vendo TV e gastando tempo à toa.

Minutos depois, eu quase caio do sofá com um barulho tão alto e absurdo que só dá pra descrever como “parecia que o teto tava caindo”. Pois é.

Eu corri desesperada pra cozinha pra descobrir que, realmente, o teto tinha caído. Eu congelei, em pânico.

Simplesmente não consigo descrever a confusão mental de imaginar que minha vó estava ali, enquanto eu via fogão, pia, mesa, tudo quebrado com pedaços enormes de concreto em cima e uma sujeira absurda.

Eis que, enquanto eu estava ali, parada, olhando pra tudo em pânico e sem saber o que fazer, minha avó aparece na porta do outro lado.

Calmamente, ela olha para o chão, para a cozinha, para o teto e, finalmente, para a minha cara de idiota e diz “me ajuda a limpar?” e saiu para pegar a vassoura.

Simples assim.

Carregamos os pedaços grandes para fora, varremos e limpamos o resto. Analisamos o estrago e o que precisaria comprar e… fomos almoçar. O dia seguiu normalmente.

Enquanto limpávamos tudo, lembro de minha avó dizer “o teto caiu, o que eu posso fazer? A gente limpa e manda arrumar. Reclamar e chorar não vai resolver.”

E ela seguiu o dia com muito bom humor e calma.

Ela podia ter morrido. Por sorte ela saiu para pegar alguma coisa no quintal bem na hora.

O teto podia ter sido consertado antes.

Podíamos ter evitado a perda de bens materiais.

Podia, podia, podíamos. O futuro do pretérito indica uma ação que não aconteceu. E a única coisa que podemos aproveitar de algo que não aconteceu é alguma lição aprendida que evite a reincidência de algumas dessas situações.

Só.

Hoje, se eu vejo rachaduras no teto, eu não sofro por elas. Eu tomo atitudes que possam evitar que elas abram de vez e derrubem tudo.

E faço isso tendo a certeza de que, se o teto cair, eu vou lidar com as consequências no tempo delas, fazendo o que me for possível no momento, limpando e fazendo reparos.

Não fico remoendo possibilidades futuras nem os estragos do passado. Eu vou agir no que o presente me permite agir. Se mudar as possibilidades futuras, ótimo. Se não, quando acontecer eu mato no peito e sigo o jogo.

E você, quantas preocupações já remoeu hoje?

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